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DRE para restaurante: como ler o que realmente sobra

Faturamento alto e conta bancária vazia é a queixa mais comum do setor. O DRE é o relatório que explica onde o dinheiro parou no caminho — e a estrutura dele muda bastante quando aplicada a um restaurante.

Por Kadu Rubim · CEO da Movenda · 12 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

O que é o DRE?

DRE é a Demonstração do Resultado do Exercício: um relatório que organiza, em ordem, tudo o que entrou e tudo o que saiu num período, até chegar ao que sobrou. Diferente do extrato bancário, ele segue o regime de competência — cada receita e cada despesa aparecem no mês em que aconteceram, não no mês em que o dinheiro se moveu.

Essa diferença é o que faz o DRE ser útil. A compra parcelada de um forno em 10 vezes não é uma despesa de R$ 20.000 em março; é o investimento em um equipamento que vai servir por anos. O extrato mostra a parcela. O DRE mostra o resultado.

Como é a estrutura do DRE, linha a linha?

Adaptada para food service:

LinhaO que entra
Receita brutaTudo o que foi vendido: salão, balcão, delivery, eventos.
(−) DeduçõesImpostos sobre venda, taxas de cartão, comissões de aplicativo, cancelamentos.
= Receita líquidaO que de fato pertence ao negócio.
(−) CMVCusto dos insumos do que foi vendido.
= Lucro brutoO que sobra para pagar a operação.
(−) Despesas com pessoalSalários, encargos, benefícios, refeição da equipe.
(−) Despesas operacionaisAluguel, energia, gás, água, limpeza, manutenção, software.
(−) Despesas comerciaisMarketing, material gráfico, promoções.
(−) Despesas administrativasContabilidade, tarifas bancárias, seguros.
= EBITDAResultado da operação em si.
(−) Depreciação e financeirasDesgaste de equipamento, juros.
= Lucro líquidoO que realmente sobrou.

Como fica o DRE de um restaurante na prática?

Restaurante com R$ 190.000 de faturamento no mês:

De cada R$ 190.000 faturados: 5,4% Impostos e cartão — 12,0% CMV — 34,2% Pessoal — 28,9% Operacionais — 14,7% Comerciais e adm. — 4,7% EBITDA — 5,4% Seis linhas de subtração separam o que entra do que sobra.
Onde param os R$ 190.000 do exemplo. O que sobra de resultado operacional são R$ 10.200.
Receita brutaR$ 190.000100%
(−) Impostos e taxas de cartãoR$ 22.80012,0%
Receita líquidaR$ 167.20088,0%
(−) CMVR$ 65.00034,2%
Lucro brutoR$ 102.20053,8%
(−) PessoalR$ 55.00028,9%
(−) OperacionaisR$ 28.00014,7%
(−) Comerciais e administrativasR$ 9.0004,7%
EBITDAR$ 10.2005,4%

Um mês de R$ 190 mil que termina com R$ 10,2 mil de resultado operacional. É a matemática que explica por que faturamento alto e caixa apertado convivem tão bem no setor: entre o que entra e o que sobra existem seis linhas de subtração.

E é por isso que um ponto percentual de CMV vale R$ 1.900 aqui. Reduzir o CMV de 34,2% para 31% aumentaria o resultado em cerca de 60%, sem vender um prato a mais.

Existe um teste rápido para saber se a operação está em zona de risco. A cartilha de CMV da Abrasel (janeiro de 2026) estabelece que CMV somado à mão de obra não deve ultrapassar 65% da receita bruta. Neste exemplo: 34,2% de CMV mais 28,9% de pessoal dão 63,1%. Passa, mas por pouco — e é isso que explica o resultado apertado.

Quais erros de classificação distorcem o DRE?

Misturar pró-labore com lucro

O trabalho do sócio na operação é despesa de pessoal, com valor definido. Retirar valor variável conforme o caixa do mês impede saber se o negócio se paga.

Tratar taxa de aplicativo como despesa de marketing

A comissão cobrada por marketplace incide sobre a venda e é dedução de receita, não despesa comercial. Classificar errado infla a receita líquida e mascara a margem real do canal.

Lançar compra de equipamento como despesa do mês

Uma câmara fria não é custo de agosto, é investimento que se deprecia ao longo dos anos. Lançar tudo em um mês transforma um mês lucrativo em prejuízo aparente — e leva a decisões ruins.

Com que frequência olhar o DRE?

Mensal é o mínimo, fechado até o dia 10 do mês seguinte. Mais tarde que isso, a informação chega quando as decisões já foram tomadas.

Operações com mais de uma unidade ganham em fechar também por loja, não só consolidado. A média da rede esconde a unidade que está drenando o resultado — e é comum descobrir que uma loja sustenta o número de todas as outras.

Perguntas frequentes

DRE e fluxo de caixa são a mesma coisa?

Não. O DRE segue o regime de competência: cada receita e despesa aparece no mês em que aconteceu. O fluxo de caixa segue o dinheiro entrando e saindo. Uma compra parcelada em dez vezes aparece inteira no DRE do mês da compra e em dez parcelas no fluxo.

Preciso de contador para montar o DRE?

Para o DRE contábil, sim. Para o DRE gerencial — o que serve para tomar decisão — não: ele pode ser montado internamente, desde que a classificação das despesas seja consistente de um mês para o outro.

Qual EBITDA é considerado saudável em restaurante?

Não existe número único, e depende de porte, formato e estrutura de custo. O que importa mais é a consistência da série: um EBITDA estável e previsível vale mais que um mês bom seguido de dois ruins.

A maior barreira do DRE não é entender a estrutura, é montá-la todo mês. Quando venda, compra, estoque e contas a pagar vivem no mesmo sistema, o relatório deixa de ser um trabalho de fim de mês e passa a estar pronto quando você abre.

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